Metodologia e Premissas

Nosso trabalho baseia-se em algumas premissas que vou expor brevemente. Tenho certa resistência por iniciar enunciando premissas; na verdade, o aprendizado deste trabalho não começa assim.

Nossa abordagem da realidade faz-se a partir de um ângulo intuitivo e sensível o qual a seguir traduziremos para um nível intelectual, racional. Esta tradução é difícil, o resultado tende a ser pobre e ficamos com a convicção de que nesta passagem a essência do conhecimento é perdida. Porém, mesmo assim, tentaremos. (por MAria Adela Palcos)

  1. O ser humano é um ser energético que recebe, dá e transforma energia, constantemente.
  2. Está imerso em um universo energético, do qual só está separado pela sua pele, uma tênue separação ao nível físico, transpassada pelas diversas energias sem dificuldades, em um e outro sentido.
  3. Sua razão de ser está indissoluvelmente ligada ao universo que o rodeia, e sua posição com relação a ele é de continuidade e não de contigüidade. A falta de consciência desta imersão no cosmos causa a sensação de vazio e solidão em que vivemos.
  4. Esta continuidade ou interpenetração também ocorre de um ser humano para outro, indo até o ponto em que desejos e impulsos de um ser estejam mais relacionados com impulsos e desejos similares de outro do que com necessidades dele mesmo, manifestadas em outros níveis.
  5. Isto leva-nos a outro postulado: o ser humano é uma pluralidade. Não tem uma personalidade, mas muitos personagens justapostos ou contrapostos e um eu central, ou essência, da qual raramente tem conhecimento, já que geralmente está afastado dessa posição central que lhe corresponderia, com o conseqüente descentramento que isto traz.
  6. Poderíamos definir estes personagens como estruturas cristalizadas que, em conjunto, constituem o que chamamos de mecanicidade psíquica ou falsa personalidade. O processo de formação da identidade desenvolve-se tomando como eixo um destes personagens e não o eu central, o que distorce e limita as possibilidades humanas.
  7. Cada personagem manifesta-se por meio de uma plástica. Damos esta denominação a uma atitude, a um modo psicofísico de estar e de relacionar-se, o qual tem a vantagem, para o nosso trabalho, de poder ser detectado simplesmente pelo olhar, pois está gravado no corpo. Cada plástica implica em um modo de respirar, perceber, sentir, pensar, responder, conhecer, etc. Disto depreende-se que há uma grande quantidade de plásticas possíveis, por exemplo: expansiva, confiante, alegre, reflexiva, temerosa, vacilante, retraída, etc.
  8. É freqüente observar-se um indivíduo que se fixou numa plástica correspondente a uma experiência de grande intensidade (de êxito, de aprovação, rebeldia, agressão, medo, etc.), a qual por não poder ou não querer expressar naquele momento, desenvolveu no corpo, em correlação com a experiência não expressa, o que chamamos de trava. Assim, a plástica fixada, em conseqüência, reativa e torna crônicos estados emocionais a ela correlacionados.
  9. A trava localiza-se em determinadas zonas do corpo e podemos vê-la e apalpá-la com as mãos. Na sua raiz, temos: zonas de sobrecarga energética que se manifestam como rigidez, tensão, dor e até alguma enfermidade orgânica; zonas de desvitalização com alterações no tônus muscular, deficiência de irrigação, falta de força, etc. Do ponto de vista da consciência, ficam como zonas não reconhecidas do esquema corporal.
  10. Complementando, assinalaremos também a existência de vários centros no ser humano encarregados de organizar funcionalmente a energia operante. Mencionaremos alguns: a) motor ou do movimento, b) sexual, c) vegetativo, d) emocional, e) intelectual. A estes poderíamos adicionar um centro emocional superior e um centro mental superior. Estão situados em diferentes regiões do corpo e, geralmente, verifica-se que a energia não se distribui igualmente entre eles, havendo a preponderância de uns sobre outros. Com freqüência há interferências entre dois ou mais centros, o que perturba a função que lhes corresponde. Por exemplo: a interferência entre os centros intelectual e motor produz esta conversa mecânica, pomposa e sem substância que conhecemos bem, na qual as palavras são mais velozes que o pensamento. Outro exemplo: a interferência dos centros sexual e intelectual, que leva a uma veemência excessiva e à defesa apaixonada de uma idéia, paixão que falta à função sexual quando em uso.

 

O objetivo deste trabalho é que as pessoas liberem-se das suas travas, possam transitar pelas diferentes plásticas ou personagens, sem ficarem prisioneiras de nenhuma delas, Desta forma, desenvolvem no físico e no psíquico, os diferentes níveis ou centros, para alcançar sua plena integração, para deixar de ser um sujeito (escravo do que, mecanicamente, vai acontecendo) e passar a ser um indivíduo (unificado, não dividido).

Expressando com as palavras de um dos membros do Rio Abierto, que teve uma abertura de consciência: “Não é: ‘me aconteceu’ tal coisa ... é: ‘eu passei por’..., as coisas não acontecem, existem. Eu passo pelas coisas, entro e saio, transito. O tempo não passa, eu passo pelo tempo”.